top of page

Colabore com o Futuro defende a disponibilização de tratamento para mielofibrose na ANS

  • 21 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura


A Colabore com o Futuro defendeu, em audiência pública da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), nesta quarta-feira (19/11), a inclusão do Momelotinibe, para o tratamento da mielofibrose, tipo raro de câncer em que a medula óssea passa a produzir células sanguíneas de forma desorganizada, levando à formação de fibroses (cicatrizes) e comprometendo a produção normal de células do sangue.


O momelotinibe, submetido pela GSK, foi proposto para tratar mielofibrose de risco intermediÔrio e alto em adultos com anemia. A recomendação preliminar da ANS foi desfavorÔvel, e a tecnologia segue em consulta pública até 24 de novembro, com todos os materiais disponíveis para anÔlise.


Os estudos clínicos indicam eficÔcia semelhante ao ruxolitinibe na redução do baço, melhor controle da anemia e menor necessidade de transfusões, embora com maior ocorrência de eventos adversos em pacientes jÔ tratados com inibidores JAK. Na anÔlise econÓmica, o proponente sugeriu possível economia, mas com limitações; os pareceristas da ANS estimaram pequena economia para pacientes sem uso prévio de JAK e aumento de custos para os demais, reforçando a necessidade de contribuições para subsidiar a decisão final.

Ā 

Tarciso Selane – GSK (Proponente)

Tarciso Selane afirmou que a anemia na mielofibrose continua sendo uma necessidade clĆ­nica sem resposta adequada e destacou que o amilotinibe representa uma alternativa relevante tanto para pacientes que nunca utilizaram inibidores de JAK quanto para aqueles que falharam no tratamento atual. Ele lembrou que diretrizes recentes jĆ” incluem a terapia em primeira e segunda linha, especialmente para pacientes sintomĆ”ticos ou com esplenomegalia associada Ć  anemia. Tarciso esclareceu dĆŗvidas metodológicas levantadas pela ANS, ressaltando que anĆ”lises atualizadas do estudo Simplify 1 mostram que ā€œo amilotinibe tem eficĆ”cia semelhante ao ruxolitinibe no controle de sintomas ao longo do tempoā€ e que isso se confirma na prĆ”tica clĆ­nica com pacientes do acesso expandido. Destacou tambĆ©m que muitos pacientes permanecem em ruxolitinibe mesmo sem resposta e que ā€œo amilotinibe pode oferecer melhora clĆ­nica real e reduzir a dependĆŖncia transfusional na segunda linhaā€, atendendo a uma lacuna terapĆŖutica crĆ­tica. Ele reforƧou que anĆ”lises integradas dos estudos Simplify 1, Simplify 2 e Momentum evidenciam baixa taxa de descontinuação por eventos adversos, mostrando que ā€œa terapia Ć© segura, eficaz e capaz de evitar a progressĆ£o da anemia, reduzindo transfusƵes e melhorando a sobrevidaā€.


Straus Tanaka – Economia da SaĆŗde (GSK)

Straus Tanaka, gerente de Economia da SaĆŗde da GSK, esclareceu pontos tĆ©cnicos da anĆ”lise econĆ“mica apresentada Ć  ANS, reforƧando que todos os custos relevantes foram integralmente considerados nos modelos. Ele destacou que houve subestimação, por parte da revisĆ£o da ANS, do uso real de ruxolitinibe em pacientes que jĆ” falharam na primeira linha, jĆ” que na prĆ”tica esses indivĆ­duos nĆ£o ficam sem suporte terapĆŖutico e continuam a utilizar o medicamento em doses ajustadas. Segundo ele, mesmo considerando cenĆ”rios conservadores, ā€œo momelotinibe jĆ” se mostra economicamente vantajoso em comparação ao ruxolitinibeā€, especialmente porque o custo deste Ćŗltimo pode variar de R$ 34 mil a R$ 76 mil mensais. Tanaka reforƧou ainda que a GSK mantĆ©m compromisso com o acesso, jĆ” tendo firmado acordos com operadoras, e ressaltou que nĆ£o Ć© aceitĆ”vel que pacientes como Lisiane fiquem sem tratamento, dada a efetividade clĆ­nica e a economia associada ao momelotinibe.


Andrea Bento – Colabore com o Futuro

Andrea Bento representou a Colabore com o Futuro, reforƧou que, embora o nĆŗmero de pessoas afetadas seja pequeno, trata-se de um grupo que realmente precisa de alternativas terapĆŖuticas eficazes. Ela lembrou que o momelotinibe Ć© apenas o segundo medicamento disponĆ­vel no mercado para tratar mielofibrose, destacando que, em doenƧas hematológicas, Ć© comum que pacientes precisem de primeira, segunda e atĆ© terceira opƧƵes terapĆŖuticas, jĆ” que cada organismo responde de maneira diferente. Andrea chamou atenção para a desigualdade no acesso: muitos pacientes conseguem obter o medicamento por via administrativa, enquanto outros recebem negativa — o que, segundo ela, ā€œcria precedentes injustos, lacunas regulatórias e incentiva a judicializaçãoā€. Por isso, pediu que a recomendação preliminar seja revista e que o momelotinibe seja incorporado ao rol da ANS, garantindo acesso uniforme, previsĆ­vel e justo para todos os pacientes que dependem dessa terapia.

Ā 

Lisiane Matos – Paciente com mielofibrose

Lisiane Matos compartilhou um relato sobre sua rotina marcada por dor, cansaƧo extremo e limitaƧƵes severas impostas pela mielofibrose, doenƧa rara para a qual vem realizando tratamento hĆ” dois anos sem resposta adequada. Ela explicou que menos de 50 pessoas no Rio Grande do Sul tĆŖm essa condição e que esgotou todas as tentativas possĆ­veis para obter o momelotinibe, mais barato que o tratamento atual, mas negado pelo plano mesmo após reanĆ”lises. Lisiane fez um apelo direto Ć  ANS e aos gestores ao afirmar que ā€œeu tenho o direito Ć  vida, e antes de um transplante, eu mereƧo a chance de tentar um tratamento que me permita viverā€, reforƧando que negar acesso a essa terapia significa retirar a Ćŗltima possibilidade de estabilização, qualidade de vida e esperanƧa para pacientes que jĆ” enfrentam uma doenƧa devastadora.

Ā 

Thiago Matos – Sanitarista

Thiago Matos destacou a importĆ¢ncia de reconhecer que decisƵes regulatórias afetam diretamente a vida de pessoas reais e que o processo de participação social precisa refletir essa responsabilidade. Ele avaliou que a reuniĆ£o teve um debate mais qualificado do que encontros anteriores. Thiago reforƧou que as sociedades mĆ©dicas detĆŖm o maior peso cientĆ­fico na formulação de diretrizes e que suas recomendaƧƵes deveriam ter credibilidade reforƧada dentro da ANS. Ele apontou que, em vez de apenas criticar metodologias ou diretrizes de utilização, a agĆŖncia deveria criar espaƧos para alinhar pontos frĆ”geis, buscar consensos e negociar soluƧƵes, inclusive estimulando mecanismos de descontos e acordos. Para ele, ā€œa responsabilidade da ANS aumenta ainda mais após a decisĆ£o do STF, o que exige um processo mais alinhado, transparente e capaz de aproximar operadoras, sociedades mĆ©dicas e demais atoresā€, defendendo que o fluxo regulatório seja mais previsĆ­vel e comprometido com decisƵes que reflitam a melhor evidĆŖncia disponĆ­vel e as necessidades dos pacientes.

Ā 

Nina Melo – Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia)

Nina Melo representou os pacientes com mielofibrose e iniciou sua fala retomando a pergunta feita por Lisiane: o que fazer quando o Ćŗnico tratamento disponĆ­vel deixa de funcionar ou causa efeitos colaterais tĆ£o severos que impedem o paciente de realizar atividades bĆ”sicas do dia a dia. Nina explicou que hoje existe apenas uma opção incorporada na saĆŗde suplementar, o inibidor de JAK2, sendo que a maioria nĆ£o pode realizar transplante de medula por idade, comorbidades ou fragilidade clĆ­nica. Diante dessa ausĆŖncia total de alternativas, ela reforƧou que ā€œnĆ£o se trata de escolher entre tratamentos, porque esses pacientes simplesmente nĆ£o tĆŖm opçãoā€, e que a falta de novas terapias leva Ć  perda de autonomia, afastamento do trabalho, isolamento social e piora acelerada da doenƧa. Nina enfatizou que jĆ” hĆ” evidĆŖncias de impacto econĆ“mico positivo com a incorporação de novas tecnologias e pediu que a ANS considere tanto os dados apresentados quanto relatos como o de Lisiane.

Ā 

Ā 

Ā 

Aline Oliveira Costa – Associação Brasileira de CĆ¢ncer do Sangue (ABRALE)

Aline Oliveira Costa representou a ABRALE e ressaltou que especialistas da reuniĆ£o tĆ©cnica reforƧaram que o momelotinibe Ć© a Ćŗnica terapia capaz de atuar simultaneamente no controle da doenƧa e da anemia, com estudos mostrando melhora dos nĆ­veis de hemoglobina e redução da dependĆŖncia transfusional inclusive em pacientes jĆ” tratados com ruxolitinibe. Para ela, essa tecnologia atende diretamente aos critĆ©rios de priorização da Portaria 8.477/2024, que inclui gravidade, raridade e impacto clĆ­nico, reforƧando que a redução das transfusƵes ā€œdevolve seguranƧa, autonomia e dignidade ao paciente, permitindo que ele deixe de depender de idas constantes ao hospital para continuar vivendoā€. Aline encerrou pedindo que a ANS considere essas evidĆŖncias e a urgĆŖncia dos pacientes ao avaliar a incorporação do momelotinibe ao rol.

Ā 

Renato Tavares – Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH)

Renato Tavares destacou que a mielofibrose, embora rara, Ć© uma das doenƧas hematológicas mais debilitantes, sobretudo pela anemia severa que acompanha grande parte dos pacientes, agravando a perda funcional e elevando o risco de internaƧƵes. Ele explicou que, apesar de o ruxolitinibe beneficiar alguns pacientes, essa terapia nĆ£o atua sobre a anemia, deixando sem alternativa aqueles que nĆ£o respondem, perdem resposta ao tratamento ou dependem de transfusƵes recorrentes. Renato reforƧou que o momelotinibe Ć© hoje a Ćŗnica terapia aprovada no Brasil capaz de atuar simultaneamente na doenƧa e na anemia, alinhando-se ao que jĆ” Ć© utilizado em guidelines internacionais. Ele lembrou que ā€œjĆ” existe experiĆŖncia real com o momelotinibe no Brasil, por meio do acesso expandido, com pacientes apresentando respostas clĆ­nicas positivasā€, apontando a necessidade urgente de incorporar essa opção ao rol para garantir que pessoas com mielofibrose tenham acesso a um tratamento eficaz, digno e alinhado com o padrĆ£o internacional.


Vinicius Geordani – Familiar de paciente com mielofibrose

Vinicius Geordani, descreveu o longo percurso atĆ© o diagnóstico, o fracasso do tratamento atual e o agravamento progressivo do quadro, destacando o ciclo de internaƧƵes, infecƧƵes e perda total de autonomia. Vinicius explicou que a negativa do medicamento pela operadora ocorre exclusivamente porque ā€œnĆ£o estĆ” incluso no rol da ANSā€, gerando desigualdade entre pacientes da mesma operadora que jĆ” conseguiram acesso por vias administrativas. Ressaltou ainda o impacto emocional e financeiro da busca por alternativas, diante de advogados que cobram valores altos para tentar viabilizar judicialmente o tratamento. Para Vinicius, ā€œincorporar novas terapias como o momelotinibe Ć© essencial para impedir que casos como o da Elisiane avancem para estĆ”gios irreversĆ­veis e profundamente debilitantesā€, evitando que pacientes sejam empurrados para riscos desnecessĆ”rios de transplantes ou para a própria morte enquanto existe uma alternativa terapĆŖutica eficaz jĆ” aprovada e disponĆ­vel.


Alex Freire – Universidade Federal de SĆ£o Paulo (Unifesp)

Alex Freire, mĆ©dico e docente da Unifesp, relatou a experiĆŖncia prĆ”tica do ambulatório que coordena, onde 10 pacientes com mielofibrose em estĆ”gio avanƧado foram tratados por meio de acesso expandido ao momelotinibe. Ele explicou que todos eram idosos, de risco intermediĆ”rio-2 ou alto, com anemia grave e, em sua maioria, dependentes de transfusĆ£o. Segundo Alex, os resultados observados após alguns meses de uso reproduzem exatamente o que jĆ” Ć© descrito na literatura: entre os sete pacientes transfusionais, seis responderam, sendo que trĆŖs deixaram completamente a dependĆŖncia e trĆŖs tiveram redução superior a 50% na carga transfusional; entre os trĆŖs pacientes que nĆ£o dependiam de transfusĆ£o, dois apresentaram aumento significativo dos nĆ­veis de hemoglobina, melhorando atividades bĆ”sicas do dia a dia. Ele ressaltou que os efeitos colaterais foram comparĆ”veis aos do ruxolitinibe e nĆ£o exigiram suspensĆ£o do tratamento. Para Alex, ā€œesses pacientes respondem muito bem ao momelotinibe, inclusive melhor do que em primeira linha, segundo dados de vida realā€, defendendo que a ANS reavalie a posição preliminar e considere a incorporação, dado o impacto clĆ­nico, a melhora funcional e o potencial de economia ao reduzir transfusƵes, internaƧƵes e complicaƧƵes associadas.


Wolney Barreto – Hematologista / Associação Pan-Americana de Hematologia (APHH)

Wolney Barreto ressaltou sua atuação clĆ­nica em hematologia e destacou que as evidĆŖncias cientĆ­ficas sobre o momelotinibe sĆ£o sólidas, especialmente para pacientes com mielofibrose e anemia sintomĆ”tica. Ele elogiou a anĆ”lise tĆ©cnica da ANS, que confirmou dados consistentes e evidenciou limitaƧƵes importantes do tratamento atual, especialmente para o grupo que nĆ£o responde ao ruxolitinibe. Wolney argumentou que o custo das transfusƵes Ć© um impacto real para o sistema e para o paciente, devendo ser considerado na avaliação econĆ“mica e na definição de polĆ­ticas mais eficientes. Para ele, ā€œnegar uma terapia eficaz para uma doenƧa rara e de difĆ­cil diagnóstico apenas empurra pacientes para transfusƵes contĆ­nuas, piora clĆ­nica e judicialização desnecessĆ”riaā€, defendendo que a ANS adote uma abordagem que permita ā€œnicharā€ a indicação, garantindo que quem realmente precisa tenha acesso sem comprometer a sustentabilidade do sistema. Ele concluiu que a incorporação reduziria desigualdades no acesso, evitaria desgaste judicial e ofereceria uma alternativa terapĆŖutica essencial.

Ā 

Izabel – Enfermeira e filha de paciente com mielofibrose

Izabel relatou a experiĆŖncia da mĆ£e, uma paciente de 77 anos com mielofibrose cujo quadro evoluiu rapidamente para anemia severa durante o tratamento com ruxolitinibe. Ela explicou que, apesar de algum alĆ­vio dos sintomas constitucionais, a anemia se agravou a ponto de exigir transfusƵes quase semanais. A situação mudou quando o convĆŖnio aprovou administrativamente o momelotinibe após a autorização da Anvisa, permitindo o inĆ­cio do tratamento hĆ” cerca de dois meses. Segundo ela, em poucas semanas a mĆ£e deixou de apresentar sintomas da doenƧa, recuperou os nĆ­veis de hemoglobina e plaquetas, e ā€œo momelotinibe devolveu a vidaā€ da paciente. Izabel afirmou que a negativa da ANS causa profundo medo, pois significaria tirar de sua mĆ£e um tratamento que finalmente funcionou. Por isso, fez um apelo para que a tecnologia seja incorporada, evitando que pacientes que jĆ” encontram alĆ­vio e estabilidade voltem ao sofrimento, Ć s transfusƵes e ao risco constante.


Próximos passos: As contribuições sobre a tecnologia poderão ser enviadas ao longo da consulta pública até 24/11/2025. Após esse período, a equipe técnica da ANS analisarÔ todas as manifestações recebidas e elaborarÔ o relatório final, no qual poderÔ manter ou revisar a recomendação preliminar desfavorÔvel. Concluída essa etapa, o relatório consolidado serÔ encaminhado à Diretoria Colegiada da ANS (DICOL), que serÔ responsÔvel pela decisão final sobre a inclusão ou não da tecnologia.

Ā 

Ā 

Ā 
Ā 
Ā 
bottom of page