O “novo” mapa de comando das comissões na Câmara do Deputados em 2026 e o que isso muda no advocacy em saúde
- Colabore com o Futuro

- há 7 horas
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Por Soraya Araujo, sócia da Colabore com o Futuro

O ano legislativo iniciou oficialmente e, com isso, vieram as notícias sobre a
definição dos partidos que comandarão as comissões permanentes na Câmara dos
Deputados. Desde então, muitas pessoas têm me perguntado o que acho do “novo”
comando da Comissão de Saúde pelo PL. É importante lembrar que, em 2025, o PL já
presidiu a Comissão de Saúde, com o deputado Zé Vitor. O que muda em 2026 não é
o partido; é o contexto. Estamos em um ano com calendário mais curto, mais disputa
por narrativas impactantes (e até sensacionalistas) e menos tolerância a agendas
longas. Nesse cenário, a forma como a comissão organiza ritmo, pauta e relatorias
passa a ter um peso ainda maior para todo o ecossistema de saúde.
Há um ponto adicional que vale acompanhar de perto nos próximos dias. Mesmo
quando o partido se mantém no comando, o que costuma mudar é a composição e os
nomes que fazem a comissão acontecer. A presidência e as vice-presidências podem
mudar. As relatorias dos temas mais relevantes são distribuídas a partir de acordos
internos e, principalmente, a lista de titulares e suplentes pode redesenhar
prioridades e o estilo de condução. Essas definições geralmente são fechadas no
momento de instalação dos colegiados e devem ser concluídas em breve. Ou seja,
além de olhar para o comando partidário, vale observar quem assume a mesa e
quem ficará responsável pelas relatorias estratégicas.
Por que a instalação rápida das comissões importa para a saúde
Comissão não é agenda de evento. Comissão é onde a pauta ganha forma e destino. É
ali que uma audiência pode virar encaminhamento, que um tema pode virar
relatório, que uma discussão ganha relatoria e deixa de ser apenas debate.
Quando as comissões começam cedo, o ecossistema ganha algo raro: previsibilidade
para trabalhar com método.
O que significa a Comissão de Saúde seguir com o PL em 2026
Quando uma comissão permanece sob o mesmo partido, o ganho imediato é
previsibilidade. Dá para antecipar estilo, prioridades, tipos de audiência, formato de
discussão e dinâmica de relatoria.
Em 2026, essa previsibilidade tem um efeito importante. O ecossistema de saúde
pode deixar de atuar apenas no modo reação e passar a atuar com planejamento.
Mas existe um cuidado que vale para qualquer presidência, em qualquer sigla, e que
se torna mais sensível em ano eleitoral. A saúde pode ser puxada para disputas de
narrativa, para temas de alto apelo público e com baixa capacidade de execução.
Evitar isso é simples, embora dê trabalho. Pautas que avançam nesse ambiente são
as que chegam com base social e técnica ao mesmo tempo, e com um caminho claro
de implementação.
Na prática, isso costuma incluir:
- legitimidade e urgência trazidas por pacientes e cuidadores;
- padrão de cuidado e evidência sustentados por sociedades médicas e especialistas;
- viabilidade e execução na ponta, com gestores, serviços e rede de cuidado;
- dados públicos e métricas simples para acompanhamento posterior;
- uma proposta que não depende de personalismo, mas de consenso possível.
Em 2026, não basta ter uma boa pauta. É preciso ter uma pauta viável, comunicável
e executável.
O que muda de verdade em 2026, mesmo quando a sigla se mantém
O ponto não é apenas o partido. São três camadas que mudam o resultado.
A primeira é o tempo. Instalar cedo amplia a janela do primeiro semestre.
A segunda é o ambiente. Em ano eleitoral, a tendência é aumentar a disputa por
narrativa e reduzir espaço para negociações longas que não gerem entrega visível.
A terceira é a composição. Um mesmo partido pode conduzir a comissão de forma
muito diferente dependendo de quem preside, de quem ocupa vice-presidências, de
quem relata e de quem compõe o colegiado.
Por isso, a pergunta estratégica para a saúde não é só qual partido ficou com a
presidência da Comissão de Saúde. É quem vai ocupar a mesa, quem vai relatar
temas centrais e como o grupo se organizará para trabalhar. Fique atento!
Como atuar em 2026
Uma agenda prática para todo o ecossistema de saúde
A lógica do ano é simples. Comissões instaladas cedo significam que a janela do
primeiro semestre vale mais. Então, a atuação precisa ser preparada, objetiva e
orientada a resultado.
1) Chegar com proposta pronta, não apenas com demanda
O que mais avança em ano eleitoral é o que chega estruturado:
- diagnóstico com dados e impacto humano;
- proposta objetiva do que muda;
- plano de implementação na ponta;
- riscos e custo de não fazer, quando aplicável;
- dois ou três indicadores simples para acompanhamento.
2) Construir caminho institucional, e não apostar em um único espaço
Saúde raramente se resolve em uma única comissão. Muitas vitórias dependem de
coerência com outras agendas da Câmara, especialmente quando o tema exige base
jurídica, viabilidade financeira ou desenho de execução. Quem concentra tudo em
um único espaço costuma perder tempo quando o rito exige outras etapas.
3) Formar alianças que sustentem a pauta quando o ambiente esquentar
Em 2026, a combinação que mais protege a agenda é uma aliança bem construída:
- associações de pacientes e cuidadores ou organizações da sociedade civil, trazendo
legitimidade e urgência;
- sociedades médicas e especialistas, garantindo padrão de cuidado e evidência;
- gestores e serviços, assegurando viabilidade e execução;
- academia e dados, oferecendo credibilidade e avaliação;
- setor privado ampliado, quando contribui de forma responsável para o como fazer.
4) Ajustar a narrativa para não virar torcida ou barulho sem propósito
A saúde que avança em ano eleitoral costuma usar uma linguagem:
- a favor do cuidado, não contra alguém;
- centrada em desfecho e qualidade assistencial;
- conectada à equidade e à sustentabilidade;
- capaz de explicar implementação com clareza.
5) Organizar porta-vozes e rito desde o início
Antes de uma audiência ou seminário, é importante ter:
- objetivo claro de encaminhamento;
- lista equilibrada de convidados;
- perguntas que puxam decisão, não apenas exposição;
- minuta de relatório ou recomendações;
- plano de acompanhamento do pós-evento.
6) Transparência e boa governança como parte do caminho
Num ambiente mais sensível, as pautas que avançam são as que inspiram confiança:
- papéis bem definidos entre os atores envolvidos;
- critérios técnicos claros e acessíveis;
- transparência sobre apoios, participações e eventuais interesses;
- registro organizado das evidências usadas;
- compromisso com o interesse público e com a execução na ponta.
Instalar comissões cedo em 2026 não resolve, por si só, os desafios da saúde. Mas
muda uma coisa essencial: devolve ritmo ao processo. E ritmo, em política pública e
advocacy, é essencial. Quando o Congresso demora a começar, quem perde não é só
a agenda institucional. Quem perde é o paciente que espera diagnóstico, a família
que vive a incerteza, o profissional que tenta cuidar sem previsibilidade, o sistema
que segue apagando incêndio.
Por isso, a pergunta que vale para o ecossistema de saúde no início deste ano
legislativo não é quem ficou com qual comissão. É o que estamos fazendo com a
janela que já se abriu.
2026 vai testar a nossa capacidade de transformar urgência em proposta, e proposta
em encaminhamento. Vai exigir mais maturidade coletiva do que brilho individual,
mais convergência do que disputa por espaço, mais compromisso com execução do
que com manchete.
Se as comissões começam cedo, o nosso trabalho também precisa começar cedo.
Agora é a hora de organizar evidências, alinhar narrativas, formar alianças e chegar
com um plano claro do que queremos construir no primeiro semestre. E lembrar
que advocacy não é só pressionar; é sustentar o caminho para que a decisão vire
realidade de acesso à saúde para milhares de pessoas.
Como já disse, a saúde não pode entrar em modo de espera em ano eleitoral. O
cuidado continua e a necessidade é permanente. É por isso que o ecossistema
precisa atuar em colaboração, para que 2026 não seja apenas mais um ano de
debate intenso, mas um ano em que decisões virem acesso, e acesso vire cuidado.








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