Sessão solene na Câmara reforça urgência de políticas públicas para doenças raras
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Em sessão solene realizada nesta quarta-feira (4), a Câmara dos Deputados reuniu parlamentares, representantes do governo, especialistas e associações de pacientes em alusão ao Dia Mundial das Doenças Raras.
O encontro teve como objetivo ampliar a conscientização sobre os desafios enfrentados por pessoas que convivem com essas condições e discutir caminhos para fortalecer as políticas públicas voltadas ao diagnóstico, tratamento e cuidado integral.
Ao longo da sessão, os participantes chamaram atenção para a demora no diagnóstico, as dificuldades de acesso a tratamentos e terapias inovadoras, a necessidade de ampliar a rede de serviços especializados e a importância de investimentos em pesquisa científica. Também foram discutidas iniciativas legislativas e ações do Poder Executivo voltadas ao fortalecimento da política nacional de atenção às doenças raras e à ampliação do acesso ao cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Invisibilidade e desafios no diagnóstico
A deputada Rosangela Moro (União-SP) afirmou que o Dia Mundial das Doenças Raras representa uma oportunidade para dar visibilidade à realidade de milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades no diagnóstico e no acesso ao tratamento.
Segundo a parlamentar, um dos principais desafios ainda é a invisibilidade dessas pessoas, agravada pela ausência de um cadastro nacional consolidado que permita identificar com precisão quem são e onde estão os pacientes com doenças raras no país.
Durante sua fala, a deputada destacou que, embora cada doença rara tenha baixa prevalência individual, o conjunto dessas condições atinge milhões de brasileiros. Com milhares de enfermidades catalogadas, ainda existe uma distância significativa entre o avanço científico e o acesso efetivo aos tratamentos no SUS, com diagnósticos que podem levar anos.
Nesse contexto, defendeu a ampliação da triagem neonatal, o fortalecimento dos centros de referência, a capacitação de profissionais de saúde e a redução das desigualdades regionais, ressaltando que o acesso ao tratamento não deve depender da judicialização.
O desafio da “odisseia diagnóstica”
A deputada Flávia Morais (PDT-GO) ressaltou que a sessão solene contribui para fortalecer a mobilização em torno da pauta das doenças raras e dar visibilidade aos desafios enfrentados por pacientes e familiares.
Segundo ela, a data representa um momento de dar voz a cerca de 13 milhões de brasileiros que convivem com essas condições, frequentemente marcadas por dificuldades de diagnóstico, acesso limitado a tratamentos e grande impacto emocional e financeiro para as famílias.
A parlamentar também mencionou a chamada “odisseia diagnóstica”, lembrando que muitas pessoas com doenças raras chegam a esperar mais de cinco anos para obter um diagnóstico.
Nesse contexto, citou o anúncio do Ministério da Saúde sobre a inclusão do sequenciamento completo do exoma no SUS, iniciativa que pode reduzir significativamente o tempo de diagnóstico e ampliar o acesso à tecnologia de mapeamento genético.
Ela também mencionou o trabalho da Rede Nacional de Doenças Raras e iniciativas como o Atlas Brasileiro Online de Doenças Raras, além da ampliação da rede de serviços especializados e da incorporação de terapias avançadas no sistema público.
Avanços regulatórios e pesquisa clínica
A diretora da Segunda Diretoria da Anvisa, Daniela Marreco, ressaltou que a data é importante para ampliar o debate sobre os desafios relacionados ao diagnóstico precoce e ao acesso a tratamentos.
Ela apresentou dados sobre a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), explicando que a agência possui normas que priorizam o registro de medicamentos destinados ao tratamento dessas condições.
Segundo a diretora, houve avanço significativo nos últimos anos na realização de estudos clínicos no país, com aumento da participação de pesquisas voltadas às doenças raras, que passaram de menos de 20% em 2020 para mais de 50% em 2025.
Daniela também mencionou a promulgação da Lei nº 14.874/2024, que institui o marco legal da pesquisa clínica no Brasil, com expectativa de ampliar a realização de estudos no país com maior celeridade e proteção aos participantes.
Atualmente, a Anvisa registra entre 12 e 15 medicamentos por ano para doenças raras, totalizando 84 aprovações nos últimos cinco anos.
Iniciativas legislativas e garantia de direitos
A deputada Maria Rosas (Republicanos-SP) apresentou iniciativas legislativas voltadas à garantia de direitos das pessoas com doenças raras, crônicas e complexas.
Entre as propostas citadas está o Projeto de Lei 4058/2023, que institui o Estatuto da Pessoa com Doenças Crônicas Complexas e Raras, com o objetivo de assegurar direitos, ampliar o acesso ao tratamento e promover a inclusão social.
A parlamentar também mencionou projetos que buscam garantir transporte gratuito para crianças com deficiência e doenças raras inscritas no Cadastro Único e assegurar a cobertura de tratamentos para essas condições pelos planos de saúde.
Na condição de relatora, comentou ainda a tramitação do projeto que institui o laço multicolorido como símbolo nacional da luta pelos direitos das pessoas com doenças raras, além de iniciativas relacionadas à criação de carteira nacional para pacientes, parcerias com entidades e inclusão de dados sobre doenças raras nos censos demográficos.
Articulação entre governo, especialistas e sociedade civil
O presidente da Casa Hunter e da Febrararas, Antoine Daher, defendeu maior articulação entre Ministério da Saúde, Anvisa, Congresso Nacional, médicos e associações de pacientes para a construção de políticas públicas sustentáveis.
Em sua avaliação, a judicialização da saúde ocorre principalmente quando há ausência ou insuficiência de políticas estruturadas.
Ele também chamou atenção para a realidade das famílias, especialmente das mulheres cuidadoras, que muitas vezes abandonam suas atividades profissionais para se dedicar integralmente ao cuidado de filhos com doenças raras.
Avanços e desafios na política pública
O deputado Diego Garcia (Republicanos-PR) afirmou que a sessão solene busca dar visibilidade às pessoas que convivem com doenças raras e reforçar que pacientes e familiares não estão sozinhos nessa luta.
Como presidente da Frente Parlamentar de Doenças Raras, ele mencionou avanços obtidos nos últimos anos, incluindo a incorporação de medicamentos no SUS para doenças como atrofia muscular espinhal, fibrose cística e doença de Fabry.
Segundo o parlamentar, três pilares são essenciais para o avanço das políticas públicas: diagnóstico precoce, capacitação de profissionais de saúde e acesso universal ao tratamento.
Ele também destacou a necessidade de implementar plenamente a Lei nº 14.154/2021, que ampliou o teste do pezinho.
Ampliação da rede de atendimento
O coordenador-geral de Doenças Raras do Ministério da Saúde, Natan Monssores de Sá, apresentou ações da pasta voltadas ao fortalecimento da política nacional para essas condições.
Entre os avanços mencionados estão:
implementação do sequenciamento completo do exoma no SUS
ampliação da rede de serviços especializados, que passou de 23 para mais de 50 centros
aumento expressivo no número de atendimentos realizados
Ele também citou iniciativas relacionadas à incorporação de terapias inovadoras e investimentos em pesquisa científica.
Fortalecimento do SUS e da pesquisa científica
Durante a sessão, parlamentares e especialistas também ressaltaram a importância do fortalecimento do SUS, da ampliação dos centros de referência e do investimento em pesquisa científica para o desenvolvimento de novas terapias.
Representantes de instituições acadêmicas e serviços especializados destacaram ainda a necessidade de ampliar a formação de profissionais em genética médica, já que cerca de 80% das doenças raras têm origem genética.
Também foram apresentados dados de serviços de referência que realizam diagnóstico, acompanhamento clínico e triagem neonatal, incluindo projetos de ampliação do teste do pezinho, considerado fundamental para o diagnóstico precoce de diversas condições.
Uma pauta que exige ação coletiva
Ao final da sessão, parlamentares reforçaram que a pauta das doenças raras deve ser tratada de forma suprapartidária, envolvendo articulação entre diferentes áreas do poder público, instituições de pesquisa, profissionais de saúde e associações de pacientes.
Os participantes destacaram que, embora cada doença rara afete um número reduzido de pessoas, o conjunto dessas condições impacta cerca de 13 milhões de brasileiros, o que exige políticas públicas estruturadas para garantir diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e cuidado integral.




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